Festival Sundance como grande potência para descoberta de novos talentos e perspectivas

Originalidade ou perda de sua essência?

Fernanda Lima - Gerente de JFQ

O Festival Sundance é um dos grandes responsáveis pela popularização e consolidação do cinema independente, dando voz a pequenas produções autocusteadas que se tornaram um forte símbolo ao tratarmos de criatividade e originalidade. Graças ao festival, que é um grande palco para a descoberta de novos talentos, ele prova que, com uma grande estratégia de marketing, todos podem obter retornos substanciais ao apresentar ao mundo filmes que fogem do esquema hollywoodiano, com novas narrativas e uma nova maneira de se expressar sobre as telonas. Dito isso, podemos dizer que o festival foi e continua sendo um dos grandes responsáveis pela descoberta e pelo “debut” de diversos cineastas que hoje são substancialmente reconhecidos e premiados, como: Quentin Tarantino, Spike Lee, Robert Rodriguez e Kevin Smith. O festival não tem seu destaque apenas por ser um dos primeiros a dar voz a pequenos talentos e democratizar o audiovisual, mas também por encorajar produções mais diversas, que provocam sentimentos confusos e estimulam a reflexão. O famoso “Provoque Society”.

Logo do festival de Sundance/ Foto: Pinterest

O festival teve seu início no ano de 1978, inicialmente chamado de Utah/US Film Festival, com a intenção de ser um espaço livre no qual jovens cineastas poderiam exibir seus filmes que não se encaixavam no modelo tradicional blockbuster hollywoodiano, bem-quisto pelo público. E justamente esse aval pouco atrativo limitou o alcance nos primeiros anos do evento, que só teve oficialmente sua virada de chave no início da década de 80 com a chegada do ator e diretor Robert Redford. Em 1984, a Sundance Institute, uma organização sem fins lucrativos fundada pelo próprio Redford, passou a administrar o festival com a ajuda do diretor de programação Geoffrey Gilmore e da diretora executiva Nicole Guillemet.

Ao longo da década de 90, o festival passou a ser uma grande vitrine de filmes, chamando a atenção de grandes nomes e se tornando um ponto de encontro do cinema indie. “Em um contexto de pós-guerra, todos queriam ser pintores, agora trocaram o pincel pela câmera e a tinta pela luz”, afirmou o diretor de programação e grande parceiro de Redford, Gilmore. Nos anos 90, ser cineasta tornou-se sonho de diversos jovens na casa dos 20 anos pelo mundo afora. O cinema e a fotografia não se resumiam mais à fotopintura e se tornaram uma grande potência artística, na qual cada indivíduo podia transmitir uma mensagem e sua visão de mundo, colocando sua “assinatura” através de seu próprio estilo.

O fundador do festival (Robert Redford) em um de seus papéis mais icônicos como Bill McKay/ Foto: Pinterest

Antigamente, salas de exibição eram improvisadas, sem isolamento acústico, poltronas enrijecidas e projetores de baixa qualidade. Entretanto, mesmo com o baixo conforto, Sundance continuou sendo motivo de estímulo para pequenos artistas, que poderiam exibir suas obras apesar do baixo orçamento, apresentando longas com imagem pouco nítida e sonorização afetada.

Atualmente, o festival é realizado anualmente entre os meses de janeiro e fevereiro, contando com a exibição de mais de 90 longas e 50 curtas, com forte ênfase na diversidade e no formato de exibições presenciais em Park City e Salt Lake City, com a opção de visualização online, recebendo milhares de inscrições a cada ano.

Hoje, Sundance nutre as esperanças daqueles que querem seguir carreira no cinema. Com a presença de grandes caça-talentos, a cada ano o festival se torna cada vez mais concorrido, o que acarreta um grande problema: o festival não consegue mais suprir a alta demanda de filmes, tendo que escolher a dedo entre cada produção. O que leva muitos críticos a apontarem uma competição injusta, visto que hoje o festival é palco de grandes filmes autocusteados que concorrem com filmes de baixíssimo orçamento.

O filme “Sex, Lies and Videotape”, de 1989, dirigido por Steven Soderbergh, é considerado como o grande marco que colocou o festival em evidência. Além desse, nomes como “Reservoir Dogs”, de 1992, do diretor Tarantino, e o documentário “Hoop Dreams”, de 1994, de Steve James, também ajudaram a alavancar a fama do grande evento. Atualmente, ainda contamos com grandes nomes e revelações. As obras que hoje são tão conhecidas no mundinho cult da internet, como: “Coda”, de 2021, dirigido e escrito pela cineasta Sian Heder, que posteriormente ganharia três categorias do Oscar, e “Corra”, dirigido pelo aclamado Jordan Peele, conhecido pela ousadia em seus plots e também ganhador de Oscar, são alguns dos bem-sucedidos filmes que tiveram sua estreia de sucesso no festival.

Daniel Kaluuya em Corra! (2017)/ Foto: Pinterest

Em suma, podemos dizer que, hoje em dia, o festival conta com grande aclamação da crítica, sendo responsável pela revelação de diversos talentos. Entretanto, muitos se questionam até que ponto o festival não se perdeu durante toda a sua trajetória. O que antes contava com produções de baixo custo e qualidade precária, atualmente é palco para longas com grande orçamento, mesmo que autocusteados. A pergunta que permanece é se a escolha das exibições realmente é feita de maneira justa, democratizando a arte e se apoiando em seu público-alvo de origem, ou se os organizadores só dão espaço àqueles produtos que têm grande potencial hollywoodiano. Afinal, histórias pessoais e honestas são mais importantes do que grandes orçamentos, de acordo com Redford, primeiro diretor do Sundance Festival e padrinho do cinema independente.

Letreiro de Hollywood/ Foto: Pinterest

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